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Ver Através da POC

Relatos da minha vida com a Perturbação Obsessiva Compulsiva ( POC / TOC / OCD ) e a Depressão (Depression).

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Relatos da minha vida com a Perturbação Obsessiva Compulsiva ( POC / TOC / OCD ) e a Depressão (Depression).

O Meu Primeiro Beijo!

31.05.20, Eva Monte

À conversa com o computador a 31 de maio de 2020

 

“Quando preciso de descanso gosto de me refugiar em momentos bons do passado que guardo, na minha memória, como fotografias. Deleito-me a observar cada pormenor que parece fazer o coração, de igual modo, disparar.

 

O meu primeiro beijo… ninguém esquece o seu primeiro beijo!

 

O meu foi numa tarde solarenga do mês de junho, mais precisamente, a 28 de junho de 1994.

 

Cabelo alourado, ligeiramente ondulado, que bailava ao sabor do vento, olhos cor de amêndoa, um nariz que parecia ter sido esculpido por artista qualquer, e umas mãos tão bonitas… não me passou despercebido.

A primeira memória que tenho dele é de, cerca 2 anos antes, num passeio, meter-se comigo e eu chamar-lhe, com uma vontade que vinha bem cá de dentro: “Estúpido!!!”.

Desde aí os nossas vidas, nunca mais, seriam as mesmas!

Realmente, era provocador e adorava levar os outros ao limite… divertia-se com isso!!! Por entre muitas brincadeiras e provocações, ele adorava irritar-me e, eu não resistia em manifestar a minha irritação… porque ele irritava-me mesmo!!! Dizia que adorava ver-me irritada… o que me irritava ainda mais!!!

E assim, fomos começando a conversar.

Uma amizade foi crescendo, muitas confidências foram feitas e ele tinha o dom extraordinário de inventar, sempre, uma forma de me fazer rir. Adorava alinhar nas minhas conversas loucas, entre sonhos e projetos… e, eu, nas dele. Gostava que eu lhe explicasse o que ele estava a sentir… dizia que ouvido da minha boca ficava mais fácil de entender… eu ria, porque quem é que é assim?!! Assim, em tantos aspetos, especial!

Insistia, sempre, em acompanhar-me ao autocarro, apenas para falarmos um pouco mais.

Passou-se mais de um ano, e a nossa amizade foi-se consolidando.

Não andávamos na mesma escola, por isso, a minha irmã servia de “pombo correio” para as cartas que escrevíamos, um ao outro, durante a semana, visto só nos encontrarmos ao fim de semana. Nelas colocávamos as nossas alegrias, as nossas lutas, os nossos sonhos, as nossas tristezas e despedíamo-nos com um beijo envergonhado de amigos.

Em maio, na altura da queima das fitas no Porto, despedi-me dele com um beijo, na face, um pouco mais prolongado que o normal. Ficamos ali a olhar um para o outro… sem palavras! Mas, chamaram-nos e tivemos de partir.

Chegados a junho de 1994. Era costume eu estudar num café na baixa do Porto. Estávamos em época de exames. Nesse dia de junho, vi-o a entrar no café! Tinha ido ter comigo sem me avisar. Enquanto caminhava na minha direção, um arrepio e o não saber bem o que fazer ou dizer.

Envergonhados começamos a conversar.

Não era habitual estarmos assim, apenas os dois num café.

Disse-me que gostava de mim… também lhe disse que gostava muito dele, que era tão boa a nossa amizade.

— “Eva, mas eu gosto mesmo de ti!!”.

Eu não acreditava que alguém, algum dia, se pudesse apaixonar por mim! Podes achar que estou a exagerar ou a lamentar-me. Mas, a verdade, é que eu achava que isso seria mesmo impossível e, que tal, não estaria reservado para mim.

Não sabiamos muito bem o que dizer… conversávamos, algo perdidos, e riamos! Caminhamos em direção ao autocarro (Um trólei. Quem é do Porto sabe!!!).

Eu disse-lhe — “Jura!”. Era uma brincadeira que costumávamos fazer. Quando um dizia “Jura” tínhamos de olhar um para o outro e tentar manter-nos sérios... perdia o primeiro que se risse. Mas, nesse dia, ele não estava a fazer as patetices que costumava fazer para que eu perdesse… eu repetia — “Jura” … e ele disse: — “Juro!”.

O meu coração batia a mil… não estava a acreditar, ou a entender bem, no que estava a acontecer.

Já mais séria, repeti: — “Jura” … e nunca mais me vou esquecer do que ele disse bem alto:

— “Que posso fazer mais para entenderes?!!! Queres que eu suba para aquela torre e grite, para todo o Porto ouvir, que eu te amo?!!!”

Fiquei sem folego, acho que fugi! Entramos no autocarro, subimos para o andar superior, sentamo-nos calados, um ao lado do outro, olhávamos, à vez, um para o outro e desviamos o olhar. Acho que tentavamos recuperar o folego e processar tudo o que estava a acontecer, algo inseguros, com o pensamento a correr a mil.

Passado algum tempo eu disse… — “Mas o que vão pensar?” …, não é que isso me preocupasse, mas não sabia bem o que dizer… ele respondeu: — “Não me importa nada!” e tive o meu primeiro beijo!!!

Na verdade, não correu lá muito bem… foi um pouco intempestivo!! Tive medo, retraí-me e cheguei-me para trás. Levantou-se de rompante, desceu as escadas, era a sua paragem de sair. Eu teria de continuar no autocarro em direção a casa, mas não consegui ficar sentada, levantei-me e saí a correr atrás dele.

Chamei-o e, algo envergonhada, confessei: — “Não me leves a mal, assustei-me um pouco, ... foi o meu primeiro beijo”.

Sorriu, algo incrédulo… e deu-me um beijo tão meigo e doce… que nunca mais me vou esquecer!

E, com um ar malandro, disse: — “Vamos ter muito tempo para treinar, vai agora neste autocarro senão atrasas-te. Até amanhã!”

O meu primeiro beijo, o meu primeiro namorado, o meu marido até hoje.

Sim, temos tido muito tempo para treinar, e, por vezes, ainda ficamos ali, só a olhar um para o outro, a tentar descortinar o que estamos a pensar e… cada beijo, que se segue, parece sempre como o … segundo!!!!

Fui…”